Segunda-feira, Dezembro 22, 2008

Grão

A terra é de ninguém, e ninguém, tampouco é dela. Espaço criado que tempera criador. É também o criador, é gente nua, é som, silêncio e religião. Não é só sertão, lugar ícone do tema. Carro, asfalto, gravata, não só Baleia e Fabiano. Depois de Graciliano, não há mais que se falar em lugar-terra.

Nosso problema é que nos perdemos em nossa terra. Não nos sentimos em casa, não estamos inspirados, o passado foi sempre melhor. Acreditamos na busca pela descoberta, no auto-conhecimento do homem. Enganado mais uma vez: procura é terra.

Terra é retalho de palavras de lembranças e saudades. Habitam a vã memória os locais dos sonhos concretos realizados e gravados em recordações fotográficas. Tudo que foi e fica, fato e lugar, pegada na areia. Pessoas passam, idéias somem, mas a terra é chão imóvel, é transeunte e passarela.

Viajo para sentir saudades dos lugares a que pertenço. Viajo para ser poeira de outras terras.

Quarta-feira, Setembro 10, 2008

Oqueda saudade (Conto VIII)

Tenho saudades, mas não sei de quê. É uma sensanção bastante estranha e desagradável. Sinto algo como uma melancolia de um passado desconhecido corroendo o meu peito e as minhas unhas. Aflição por desvendar o quê da saudade, pra poder sofrer finalmente em paz. É como a inexplicável fascinação de gostar de um livro nunca lido, de recomendá-lo, de viver uma farsa passível de correção. Entretanto, não há mais tempo para ler. Devo sempre recomendar novas obras. Como um professor de colégio, que apesar do teatro, parou nos resumos.

Não é apenas saudade do que eu não vivi. Tal qual um historiador e os fantásticos carnavais, as cervejas geladas dos poetas de outros tempos, o sublime som de um trenzinho distante, as grandes revoltas, as maravilhosas festas e as orgias seculares. Hoje, não. Trata-se de algo maior, talvez mais abstrato. É saudade mesmo de algo que desconheço. É só o sentimento puro, sem justificativa aparente, sem qualquer motivo que o valha.

Talvez seja só uma dor brasileira. Não fala qualquer outro idioma. Não se faz ser entendida em nenhum outro lugar. Não há mímica ou gravura que explique o que é sentir o peso de uma saudade sem razão.

Talvez eu sinta falta é de me iludir com um motivo. Talvez eu sinta apenas falta de uma razão. Viver, pelo menos um pouco, a vida de outro. Ter um novo código moral e o prazer de ser apenas mais um personagem. Preencher o quê da saudade em minha vida com um novo sofrimento em páginas.

Domingo, Abril 06, 2008

Metrô (Conto VII)

Todos os dias descem de escada rolante. Quem disse que o trem para o inferno não tem ar-condicionado? Pessoas que passam. Minutos que atrasam. Sonhos que matam. Todos enfileirados esperando o apito e a abertura da porta. Correm desconhecidos competidores tentando um lugar sentado nas cadeiras contadas.

Olhares cruzam os ares e as páginas de jornal dos mais precavidos. Angústia em óculos escuros, fones de ouvido, celulares ou simplesmente olhos fechados. Cada um se defende como pode. Todos aguardam a emersão de volta à terra.

Chinelos de dedo encostam em sapatos, que encostam em sacolas, que encostam em bengalas. Vários os tipos aprisionados numa mesma cela. Não há qualquer sinal de privilégio. Por instantes são todos membros de uma mesma sociedade. Membros de um corpo que se move despedaçando e recompondo, preenchendo sua essência de novos pesares.

Metais formam apoios para mãos que procuram equilíbrio. Em alguns momentos o equilíbrio é basicamente composto de ombros desconhecidos. Balança no arranque e na chegada. É próxima estação, next stop, sempre uma parada. E em cada parada, maior o desejo do fim. A última estação é desembarque obrigatório para os corpos. Os pensamentos nunca estiveram aqui.

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Insônia (Conto VI)

Sei que estou só ao ver que no cinzeiro jaz meu cigarro mal-tragado, com uma cinzenta longa fileira não fumada. Experimento a cerveja parada em meu copo. Quente, só poderia estar quente. Assim como o meu peito em noite de aperto, como essa. Onde estive nesse tempo? Os meus dentes trincam enquanto a diabólica oficina maquina desimportâncias.

O balanço das árvores, a fumaça e os postes da rua. Tudo parece muito mais claro durante a noite. O escuro se esforça para crescer e as sombras aumentam. Em vão para quem não consegue dormir. Para quem já rolou, tentou e por fim acabou entregue aos pensamentos vadios da hora.

O silêncio não é ausência. Na minha cabeça, é a mistura de todos os sons em pensamentos, que gritam e buzinam em formas de questões e suposições. Perturbação é ficar preso em meio a isso tudo. O alívio vem com um carro na rua. Barulho externo é sinal de vida.

Queria ter vizinhos que trepassem de cortinas abertas. Gostaria de ter visto pelo menos um quase-suicida. Nada teria efeito essa noite. Procuro lâmpadas que também sofram de insônia nos prédios ao lado. Procuro alma nesse corpo na rede deitado.

Não há Deus para quem fica acordado além do horário das preces que precedem o sono.

Terça-feira, Julho 10, 2007

Paraty (Conto V)

Sentado de novo no mesmo lugar. Aquele muro, aquela casa, aquele azul, aquele mar. A temperatura é que sempre mudava, e o dia era Recife, a noite Porto Alegre. Optava então por roupas claras, mas longas. Costumava ficar elegante com o Panamá e a bengala. Já fazia parte da paisagem, talvez por isso estivesse mais uma vez ali. Preso ao tempo, ao lugar, ao próprio pensamento.

Sentia falta de Izabel, principalmente depois da quinta dose da envelhecida, que o bondoso garçom servia com uma cordialidade excessiva, como se estivesse diante de um turista. Esse mesmo rapaz ainda vinha conversar sobre futebol, mulher e os novos pratos da casa. Não entendia o porquê, se era sempre a moqueca à capixaba o pedido. Talvez fosse frustração do chef, ou do dono do local, mas isso não vem ao caso. Todas as conversas tornavam-se insignificantes. Todos éramos insignificantes.

Todo aquele lugar estava preso a mim. Disso eu tinha convicção plena. Não que eu tentasse libertar toda aquela gente, mas de vez em quando eu refletia e acabava sem tomar qualquer atitude, tinha medo da solidão. Todos tornavam-se escravos de minha memória e apareciam para mim em forma de pintura e sons, que eu tentava botar no papel em forma de poemas. Cada vez que escrevia um novo era como se o lugar morresse mais um pouco, saltava da minha mente e ficava preso à tinta num estúpido papel qualquer.

Suor e álcool escorriam e caiam no chão mal construído. Cego, eu continuava e precisava terminar aquilo. Pouco a pouco eu matava tudo, desconstruía igrejas, arrancava árvores, acabava com aquela mesa, aquele bar, aquela outra dose. Acabava com Izabel. No fim, era pó e pedra. Eram eles, ou eu.

Sexta-feira, Junho 08, 2007

Prato frio (Conto IV)

Tive um insight e marquei um almoço com a minha criatividade. Cozinhei algo e fui direto para o banho, estava atrasado. Foi daqueles banhos longos, relaxantes, pra afastar pensamentos ruins e dar a devida atenção para o que eu tinha a ouvir. Botei uma roupa boa, camisa nova, melhor calça. Perfumei-me todo e ainda penteei o cabelo.

Arrumei a mesa e servi vinho para acompanhar a comida. Fiquei esperando... esperando... e ela não apareceu. Enfim, tomei um bolo e almocei sozinho. Que raiva, logo surgiram na minha cabeça pensamentos de vingança, e era garfada, golada e uma pausa. Vingança é um prato que se come frio, e lá estava eu, sentado, sozinho, comendo aquilo que já estava indefinido pelas várias misturadas do meu garfo.

Poxa, e eu que já tinha pensado numa história sobre o olhar para fora ser mais um olhar para dentro, tinha velho e cadeira de balanço, até cigarro, vejam só, até cigarro. Mas cadê que a safada veio? Veio nada, e a minha raiva aumentando gradativamente conforme enchia novas taças de vinho. Vocês não sabem como detesto comer sozinho.

Finalmente terminei o almoço e o vinho e decidi-me quanto à vingança. Escreveria um texto mesmo assim. Mostraria a ela que eu consigo produzir sozinho. No final acabou saindo uma porcaria e fui para a varanda. Acendi um cigarro fixando o horizonte do meu vô, que balançava e ruía, no balanço, sentado.

Segunda-feira, Março 19, 2007

Regime do café

Dando uma pausa nas crônicas, posto agora um texto de pura filosofia de boteco. Digo mais, de filósofo anarquista, ou comunista, como os que se identificarem preferirem. Aliás, esses são os maiores pensadores de pé-sujo do Rio de Janeiro, quiçá do Brasil e do mundo. Sujeitos aparentemente desocupados que em sua militância recusam a Coca-Cola enquanto tomam Skol e discutem as ferramentas de poder do sistema.

Em estado de ócio, pensando no conceito de trabalho, cheguei à conclusão de que um dos pilares inconscientes do nosso sistema é o café. Pausa para explicação: Digo inconsciente por não acreditar numa conspiração, em um burguês malvado pensando no café como uma brilhante ferramenta de manipulação.

Passado isso, volto ao ponto principal. O café possibilitou, e ainda hoje o faz, a exploração das massas. É ele que permite que trabalhemos 8h e não menos. Que produzamos mais, que fiquemos acordados logo de manhã. Que não tenhamos cansaço depois do almoço e possamos voltar ao trabalho com apenas minutos de descanso.

Se observarmos o mercado desse grão, percebemos uma alta nos momentos de aumento de industrialização dos países. Seria mera coincidência? Mais uma vez afirmo que não acredito em burgueses malvados usando o café como arma, mas as pessoas tomaram o negrinho como algo natural, precisavam trabalhar mais e mais. Observando o quanto a maioria suportava, estabeleceram as horas de trabalho diário. Novamente pergunto-me se tantas horas seriam possíveis sem o café.

Sem nem falar no mal que isso acaba fazendo, gerando estafa e cansaço geral. Trabalhadores operando sobre o limite humano, todos os dias. Acredito ainda que poderíamos ir mais longe nessa teoria e dizer quão prejudicada fica a vida conjugal com isso. Pessoas chegando esgotadas e com mal humor em suas casas. Não mencionando o trânsito, motoristas estressados querendo chegar logo em casa.

Não posso negar que faz parte da tradição brasileira e que depois do almoço de domingo é uma maravilha. Para resolver a questão, só tomo café aos domingos. Não nego a tradição e continuo na minha luta contra um pilar do "regime", luta essa muito mais sensata do que contra uma empresa, ou um país. No mais, desce mais uma aqui, que a minha já esquentou.